peixe a peixe

cose a galinha as asas.

Paredes de Brandão

do dia/nas noites

Aos que não escondendo a noite a conseguem fazer mais clara

(the days so loud)

das lições do ano do azar auto-infligido

que a mentira é o acto mais humano de todos.

é que nunca vi um cão a mentir. nem mesmo as melgas, ou os pombos – bichos que na minha escala de preferências animais estão remetidos bem lá para o fundo, fundinho -, me parecem capazes de tal coisa. já vi bichos enfadados, desconfiados, apaixonados, agradecidos, até já conheci bichos incoerentes, mas nunca um capaz de mentir, além do bicho humano. haverá alguma lei das compensações para isso, claro. mas mesmo essa, a existir, acredito tender a abonar mais ao resto da fauna terráquea que não o homem.

é, às vezes a fé consegue tornar-nos as ideias um bocado flácidas
os pontos de interrogação começam a espalhar-se como celulite pelos pensamentos
é que sabemos que o movimento há-de dar conta da crença de vez
e por isso mantemo-nos quietos
a engordar os detalhes dos acontecimentos

é, ocupei-me das pedras por demasiado tempo
e como ainda por cima não parou de chover o tempo todo
acabei por submeter o poema a uma tortura chinesa a que nunca deveria ter sido chamado

continuo a querer recusar o arrependimento
e é principalmente por isso que há muito descartei chegar a santa

mas é uma missão difícil nestas chuvas que ainda teimam em escorrer de mansinho

(e não é por ser piedosa que a mentira deixa de faltar à verdade
nem mesmo quando pronunciada em silêncio)

não vá a escrita corromper a realidade e fazê-la ainda mais permeável à ilusão, resolvemos, momentaneamente, sucumbir à paralisia. luz em vão, não é precisa. navegar continua a ser. e o extra-ordinário que nos vai alimentando ainda uma espécie de religiosidade sorumbática onde parece não encaixar a fé do nosso sorriso febril, é precisamente o descartar dessa precisão, âncora tão desnecessária como o grumo mais denso da farinha que fica entalado na peneira, e contudo inerente a tantos certos elementos quotidianos que teimam continuadamente em apontar caminho a uma realidade  cinzenta, empoeirada e birrenta, que, sem ponta de dó e tão segura de si, desaustinada nos asfixia as possibilidades mais incautas da narrativa, desculpando-se com a cautela por te ter impedido o salto que, reconhecendo o perigo da morte, sabe que somente através dele se há-de *poder* chegar ao poema, e que se por algum acaso não conseguirmos esticar a corda com o verso, terá de qualquer forma valido a pena:  já concluímos que esta morte não é vida. há muito que não gera poema nem se faz poesia.

lenta e proteladamente, obrigando-te a desconfiar sempre mais a cada mudança de compasso, essa espera por um nunca (engalanado pelo para sempre do seu contrário) não conseguiu, pelo menos por enquanto, para já, ou por agora, fazer calar de vez este querer crer: acreditar que é eventualmente possível chegar.

ou então

raios.

nada menos do que raios.

e a seguir a eles, trovões que os traduzam e se façam consequentes.

é que os coriscos já não chegam para empatar o desejo.

 raios.

há agora uma diferença nas palavras (versão primeira e primária)

devem ser precisas, mesmo se desafinadas.

sabemos bem que esta vindima azedas trará as uvas.
chamem lá por Malaquias
por Oresteu
pelo Henriquinho
por Sebastião.

culpem os concílios
os monstros os nevoeiros

e os messias
que para vós
tão facilmente
vão
de diabos
a parceiros.
culpem lá os nevoeiros.

e ainda falam das prostitutas
que capitalizam somente o que é seu
o corpo que é seu
honestas vendem o que lhes pertence realmente
vocês, que tentam até capitalizar deus
sem perceberem que eu sei que vocês sabem que o deus sou eu.

há agora uma diferença

nas palavras

elas são precisas.
devem ser precisas.

mesmo se desafinadas.

devolvam-me o poema livre, por favor. os noticiários não o deixam em paz.

lá ao longe estão ainda os campos de algodão. queremos ser sérios e falar de coisas mais reais mas esta terra queimada com que vamos ter que nos amanhar já só apela ao sonho, e isso porque temos alguma alergia ao dormir e resignados nos vamos prostrando a esse meio caminho entre o dormir e o não deixar de estar acordado. isto, até que se faça abrir a porta ao silêncio absoluto e ele se instale definitivamente, claro. assim como assim, o sono é sempre coisa do domínio do ruidoso, ao qual se acrescenta sempre a estática da terra. é. está muito barulho, e damos por nós a imaginar qual será a temperatura sonora do mundo, escondida lá no meio dos imensos campos de algodão.

(long walk/yet and again/aquarelle numbers)

no papel, como no existir terreno, é precisa muita paciência para vermos os padrões serem formados e a ordenação da fórmula começar finalmente a desenvencilhar-se.

and no, children, we’re not there yet.

enquanto não consigo recuperar a escrita,

aproveito o o tempo livre, optimizo o desemprego, e mando o mundo todo à merda. bem… quase todo.